quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Reviver o passado em Coimbra


E eis que, depois do pinhal denso da mata, o arvoredo se rasga e do seu interstício, por sobre a serena lágrima espelhada que é esse rio Mondego, se ergue altiva a Torre da Cabra, antiga e solene, templo cronológico da noite coimbrã que a cada badalada funde o instante com eras ancestrais.
Foi num fim-de-semana solarengo que regressei à cidade que tantas vezes amaldiçoei e tanto amei, onde desperdicei os anos mais preciosos da minha juventude (nunca anos foram desbaratados de forma tão leviana e saborosa), e outra vez encontrei-a, inocente e sonhadora, irreverente e pioneira, boémia e filosófica.
Entrei solene no Arco de Almedina e, no topo do quebra-costas, dobrei a Sé Velha batida pelo sol do fim de tarde; lancei um olhar respeitoso às estátuas das faculdades; fumei um cigarro no café Tropical, onde as mulheres entregam os seus corpos voluptuosos às cadeiras vermelhas da esplanada e o pensamento à irrisão; atravessei a sombria avenida das tílias do jardim botânico, que guarda um orvalho eterno; passeei-me junto ao rio, donde se vê o passado e o futuro.

Por fim, banhei-me nas águas da praia fluvial, e as colinas do vale cantaram uma música que nunca conheci.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os Ciclames (Gulliver)



Hoje, durante a minha deambulação matinal pelas ruas adormecidas e ásperas, o meu olhar roçou um par de ciclames aos pés de uma florista... As flores coloridas e viçosas lembraram-me a marcha fúnebre que acompanha os belos versos do meu caro Taupin, que trauteio enquanto fumo uma cachimbada...

Gulliver

Gulliver's gone to the final command of his master
His watery eyes had washed all the hills with his laughter
And the seasons can change all the light from the grey to the dim
But the light in his eyes will see no more so bright
As the sheep that he locked in the pen

There's four feet of ground in front of the barn
That's sun baked and rain soaked and part of the farm
But now it lies empty so cold and so bare
Gulliver's gone but his memory lies there

By passing the doors of his life was a stage I remember
And in later years he would cease to bare teeth to a stranger
For sentiment touched him as Cyclamen holds him
And later men came from the town
Who said clear the child this won't take a while
And Gulliver's gone with the dawn

(Bernie Taupin, 1969)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Planos para o Réveillon

Recostar-me na otomana de ébano na solidão do meu quarto pentagonal, e deixar que o ano de 2009 d.C. me vá entrando lentamente, suavemente pelas narinas como um sono, enquanto os meus olhos sorvem as hábeis palavras de Marcel Proust, e os meus lábios aquecem sob um resquício de brandy que bebo do velho cálice rachado. De madrugada, tocarei alaúde para o asfódelo que me cresce na janela, e olharei a luz que brota do horizonte com a mesma desesperança de sempre.

Primeira linha do meu inútil livro de memórias


O Mundo é, todo ele, um lugar provinciano.