quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Reviver o passado em Coimbra


E eis que, depois do pinhal denso da mata, o arvoredo se rasga e do seu interstício, por sobre a serena lágrima espelhada que é esse rio Mondego, se ergue altiva a Torre da Cabra, antiga e solene, templo cronológico da noite coimbrã que a cada badalada funde o instante com eras ancestrais.
Foi num fim-de-semana solarengo que regressei à cidade que tantas vezes amaldiçoei e tanto amei, onde desperdicei os anos mais preciosos da minha juventude (nunca anos foram desbaratados de forma tão leviana e saborosa), e outra vez encontrei-a, inocente e sonhadora, irreverente e pioneira, boémia e filosófica.
Entrei solene no Arco de Almedina e, no topo do quebra-costas, dobrei a Sé Velha batida pelo sol do fim de tarde; lancei um olhar respeitoso às estátuas das faculdades; fumei um cigarro no café Tropical, onde as mulheres entregam os seus corpos voluptuosos às cadeiras vermelhas da esplanada e o pensamento à irrisão; atravessei a sombria avenida das tílias do jardim botânico, que guarda um orvalho eterno; passeei-me junto ao rio, donde se vê o passado e o futuro.

Por fim, banhei-me nas águas da praia fluvial, e as colinas do vale cantaram uma música que nunca conheci.